Catraca de canhão não é conhaque de alcatrão

O assunto nem é novo, mas é gancho: uma campanha recente da Prefeitura de Vitória (ES) sobre uso da bicicleta em vias públicas deu o que falar nas redes sociais. Trata-se de uma animação em que o ciclista transita próximo à calçada o que, na opinião dos cicloativistas, é um erro. Não vou entrar no debate do mérito: a prefeitura diz que a campanha cumpre à risca o texto do CBT e os ciclistas dizem que a lei não trata da distância exata do “bordo” ao qual se refere. Particularmente, gosto da regra do 1/3, mas entendo as razões do poder público.

A discussão me fez refletir sobre outras coisas que envolvem trânsito e compartilhamento da via. Em primeiríssimo lugar, deixe-me esclarecer meu lugar de fala. Sou ciclista quando posso, passageiro quando estou com tempo sobrando e motorista por falta de opção. Não acho que bicicleta resolve o principal problema da mobilidade urbana, que é levar os trabalhadores para os seus locais de trabalho de manhã e o trajeto inverso no fim do dia. Para isso – estamos falando do Brasil -, tem que ter ônibus confortável e acessível, trem, metrô, lancha, van, enfim, modalidades de transporte coletivo que façam as pessoas deixarem seus carros em casa. Considero a bicicleta um modo auxiliar importante, uma forma de lazer e uma prática de transporte saudável e ecologicamente responsável que deve ser incentivada pelo poder público.

Nesse sentido, a campanha da prefeitura e a contra-campanha dos cicloativistas (ou vice-versa) não giram em torno do grande debate sobre mobilidade urbana, como uma primeira visão nos quer fazer acreditar. Estamos nos referindo a um problema de cultura do trânsito. Grosso modo, isso que o poder público por sua natureza policial chama de “educação para o trânsito”  e o cicloativismo, por sua vocação digital chama de “compartilhamento da via”. Ou seja: desdobramento do problema de mobilidade, mas não o seu centro.

Motoristas engarrafados na capital (Foto: O Capixabão)

Trânsito em Vitória (ES) (Foto: O Capixabão)

O fato é que existe um comportamento específico do cidadão quando está em trânsito e é isso que deve ser mudado, sob pena da incivilidade. Transformar a cultura do trânsito no principal problema da cidade em relação à mobilidade coloca as bicicletas no centro, mas não resolve nada.  É aqui que faço a crítica ao pensamento idealista e metafísico de uma parte dos cicloativistas capixabas. E explico onde mora o perigo: é que sob essa perspectiva, o motorista (e não a ausência do transporte público) vira automaticamente o vilão do processo. Primeiro porque usa como ferramenta de transporte um bem de consumo (produção?) condenável e cheio de valores subjetivos criados pelo capitalismo ao longo da história que nos remetem ao individualismo, à competição e ao status quo dominante. Segundo porque é o grande responsável pelas estatísticas de acidentes que não raro ilustram os debates sobre mortes no trânsito. Ou seja, a própria personificação de Herodes Antipas.

Antes de ser chamado de qualquer coisa, esclareço: se o problema está com o motorista de automóvel, é sim sobre ele que devem incidir as campanhas para melhoria da convivência no trânsito. Mas é também importante considerá-lo cidadão, agente no processo de transformação da cultura do trânsito. Nesse sentido, como numa campanha interativa qualquer dos tempos da internet, é preciso garantir-lhe empoderamento, abrir canais para ouvir suas opiniões, no caso, sobre o trânsito e a cidade. Não é preciso nenhum movimento social que diga que o motorista é um câncer, um problema para o espaço urbano. O estado já faz isso com sua linguagem imperativa, suas intervenções quase nunca inteligentes e seus agentes antipáticos.

A convivência pacífica de cidadãos motoristas e cidadãos ciclistas requer o desprezo pelo maniqueísmo religioso. Não são, todos os motoristas, malvados que querem assassinar ciclistas nas beiras de calçadas, e nem todos os ciclistas investidos de uma “aura lilás”, arautos da paz e do bem. Educar, nessa perspectiva, é ampliar o debate sincero sobre a cultura do trânsito, separando-o, dentro do possível, do debate central sobre mobilidade urbana. Senão, misturamos pedágio, praças, lazer, transporte público, caixa de fósforo e bicicleta. Misturar assuntos quase sempre ajuda a complexificá-los, o que acho excelente. Não é o caso. Essa mistura torna ambos os debates (mobilidade urbana e cultura do trânsito) mais rasos. Coloca cicloativistas contra motoristas e não combate o sistema de produção orientado para o lucro a qualquer preço, verdadeiro responsável por nossas mazelas diárias no trânsito. De carro, de ônibus ou de bicicleta.

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